Pessoas em primeiro lugar: a educação na pandemia 🙋‍♀️ 🙋‍♂️

Perguntas centrais para educadores na pandemia

Sara Vogel

No texto dessa semana, compartilhamos três perguntas essenciais propostas pela Dra. Sara Vogel, que foi palestrante no Sphere International Seminar de 2019.

Momento difícil de ensinar e aprender.

Com a propagação do coronavírus COVID-19 pelo mundo, cursos universitários e escolas de ensino fundamental e médio passaram a operar on-line para ajudar as famílias a aderirem às políticas de distanciamento social. Vários meses depois, algumas regiões e nações começaram a flexibilizar as restrições. No entanto, é provável que, por muito tempo, a escola não volte a ser como antes da pandemia – ou mesmo nunca mais.

Como pesquisadora em educação na cidade de Nova York, trabalhando em projetos em colaboração com professores de nossas escolas públicas, percebi que as experiências das pessoas com “escola” variam muito. Alguns estudantes têm acesso imediato a ferramentas de tecnologia e banda larga, e outros não. Alguns se sentem estressados e outros entediados. Alguns ficam doentes, outros não.

Com essa desigualdade e diversidade de experiências em mente, proponho três perguntas centrais que todos os educadores – independentemente da situação e localização – poderiam e talvez devessem estar se perguntando e usando para orientar sua prática.

Meu colega, Dr. Christopher Hoadley, da Universidade de Nova York, chamou a atenção da nossa equipe de projeto para um post da Professora Vanessa Dennen (Dennen, 2020). A Professora Dennen oferece um mantra simples que pode ajudar a todos nós a estabelecer prioridades durante esses tempos: primeiro as pessoas; conteúdo segundo; terceiro a tecnologia.

Entendi que isso significa que, antes que os educadores possam atender às necessidades de seus alunos, eles devem cuidar de si mesmos – garantir que eles e suas famílias estejam fisicamente e mentalmente saudáveis. Esta não é uma tarefa fácil. As pessoas enfrentam lutas diferentes, dependendo de suas circunstâncias econômicas e sociais e dos tipos de apoio oferecidos pelos governos locais e nacionais (Goldstein et al., 2020). 

À medida em que os professores cuidam de sua própria saúde e da saúde de suas famílias, as orientações de “People First” de Dennen também devem inspirá-los a fazer um balanço das realidades dos alunos. Onde estão os alunos e com quem? Todos os membros em casa estão saudáveis? Quais são as emoções e capacidades de seus alunos para aprender neste momento? Qual a participação ativa dos pais na aprendizagem dos alunos? 

Também seria útil aprender sobre as práticas não digitais que acontecem em casa – as famílias estão cozinhando juntas? Brincando com jogos e brinquedos? Fazendo arte ou música? Indo para caminhadas na natureza? O conhecimento dessas informações sobre os “funds of knowledge” (patrimônios culturais) dos alunos (Moll et al., 2005) pode ajudar os professores a projetar experiências de aprendizado que se conectarão com as realidades presentes dos alunos.

Essa pandemia reacende debates seculares sobre os propósitos da escola. Hoje, as crianças precisam compreender o contexto para se engajar e gerenciar seu tempo em tarefas escolares. Se eles não veem a relevância ou importância dessas tarefas, por que fazê-las? Há muitas outras coisas conectadas aos seus interesses nos dispositivos eletrônicos e nos espaços da casa.

Os educadores devem se perguntar sobre seu papel e o papel da “escola” nesta crise. Talvez as escolas e os professores considerem como prioridade oferecer aos alunos uma rotina estável e cuidado atento. Se for esse o caso, a prática deve refletir esse valor – talvez as escolas tenham tempo para os professores acompanharem os alunos em vídeoconferências durante a semana ou começarem todos os dias com uma “verificação de temperatura” emocional durante um bate-papo por vídeo. Talvez os educadores se considerem mentores de alunos, especialmente dos mais velhos. Eles podem aprender sobre o que os alunos gostam de fazer em casa e ajudá-los a aprofundar e expandir essas paixões e interesses. A comunidade do Connected Learning (Dyson & Larson, 2019) e muitos outros nos lembram que o aprendizado pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar. O professor como mentor pode direcionar os alunos para recursos relevantes e comunidades on-line seguras – por exemplo, a comunidade de escritores de fan-fiction do Wattpad (http://wattpad.com/) ou a comunidade Scratch para criar e compartilhar histórias e jogos digitais (http://scratch.mit.edu) ou um canal do YouTube para atividades físicas, culinária ou arte – depois solicitar que os alunos justifiquem suas escolhas e reflitam sobre seu progresso.

A pergunta também deve levar os professores a reimaginarem o relacionamento deles e de seus alunos com as questões da escola. Os professores esperam que os alunos aprendam todo o conteúdo e pratiquem todas as habilidades descritas nos documentos oficiais?

Um objetivo central dos educadores nesses tempos também é ajudar os alunos a responder à pergunta “por que a escola?” Fora da estrutura obrigatória do dia escolar, os alunos podem ser motivados pela promessa de um público autêntico para sua escrita, projetos digitais ou obras de arte, por conexões com suas vidas diárias, interesses e tópicos de que se preocupam, ou por conexões sociais com seus colegas de classe.

Embora a transição para a aprendizagem remota tenha acontecido rapidamente e sem muito aviso, parar para pensar nas prioridades e nos objetivos principais ajudará os alunos e os professores a manterem-se saudáveis e a usarem esse tempo de maneiras satisfatórias e significativas.

Esse texto foi adaptado de: VOGEL, S. (2020). CORE QUESTIONS FOR EDUCATORS TEACHING IN A PANDEMIC. In: LIBERALI, F. C.; FUGA, V. P.; DIEGUES, U. C. C.; CARVALHO, M. P. (Orgs.) (2020). EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA: BRINCANDO COM UM MUNDO POSSÍVEL. Campinas, SP: Pontes Editores.

Sara Vogel

Sara Vogel

Sara Vogel Sara Vogel holds a PhD from Urban Education at the Graduate Center of the City University of New York. She studies the intersection of computer science education, bilingual education and social justice pedagogy. A former NYC public school bilingual teacher, Sara is now the lead research assistant on Participating in Literacies and Computer Science (PiLaCS), a National Science Foundation-funded project which aims to leverage the diverse language practices of bilingual youth as resources in their computer science learning. An instructor of foundational courses in bilingual education at CUNY-Hunter College School of Education, she was also previously a Research Assistant for the CUNY-New York State Initiative on Emergent Bilinguals, where she coached classroom teachers and supported school leaders to consider how the theory of translanguaging might shape their practice. She holds a Master's degree in bilingual education from CUNY - Hunter College, and a BA in Urban Studies from Columbia University.

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One Response

  1. Sarah,
    Tivemos a oportunidade de assistir você no Sphere. Perfeito as suas perguntas… muitas vezes, estamos presos as respostas, mas são as perguntas que nos levam as reflexões.

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